Carnaval e futebol, tudo a ver!
por Professor Mariano
É milenar, é milenar
A invenção do futebol
Fez o artista
Ter um sonho triunfal
Com versos acima, a fenomenal dupla de compositores Betinho e Jorge Canuto poetizaram a utopia futebolística do genial Joãosinho Trinta, no enredo “O Mundo é uma Bola”, que a Beija-Flor levou há 40 anos para o sambódromo.
O ano era 1986 e a Copa do Mundo de futebol masculino seria realizada no México, como neste ano. A única diferença é que agora, o País da Tequila irá compartilhar o evento esportivo com o Canadá e os Estados Unidos.
A Beija-Flor desfilou na passarela do samba no dia 10 de fevereiro, sendo a segunda escola a se apresentar na segunda-feira. Com o Brasil em contagem regressiva para a Copa do Mundo, a Azul e Branco da Baixada Fluminense transformou a pista em um grande templo de celebração esportiva, cultural e histórica.
Joãosinho Trinta, já consagrado como um dos maiores carnavalescos de sua geração, assinava essa obra em parceria com outro espetacular artista do carnaval, o esplendoroso Viriato Ferreira. Falar da Beija-Flor de 1986 é falar da capacidade única de Joãozinho Trinta de contar histórias grandiosas. Ele não fez apenas um desfile sobre futebol, mas traçou a odisseia do esporte desde suas raízes milenares. Nasce daí a inspiração do refrão espetacular do samba feito por Betinho (um dos compositores do samba) na casa do carnavalesco, depois de muita cobrança por um refrão arrebatador. A escola viajou no tempo para mostrar jogos e rituais com bolas praticados por civilizações antigas – como a egípcia, a grega e a romana – até desaguar na explosão popular do futebol moderno no Brasil.
O visual da Deusa da Passarela era impactante, mostrando toda a virtuosidade estética do talentoso Viriato Ferreira. As fantasias eram luxuosas e criativas, os carros alegóricos monumentais desafiavam o sambódromo. O abre-alas era uma bola da Adidas muito bem estilizada, remetendo à Copa daquele ano nos gramados mexicanos. Em cima dela, vinha um garoto representando o genial Pelé, maior jogador de futebol de todos os tempos. Logo após, vinha o primeiro setor da escola, com muito brilho, dourado e azul, lembrando a ancestralidade e evoluindo gradativamente para as cores vibrantes que marcam o folclore e a torcida brasileira. Uma autêntica obra de arte!
Mas o desfile da Beija-Flor de extraordinário foi se transformando em algo épico, isso porque a chuva, que sempre foi uma convidada indesejada para os artistas do carnaval, resolveu marcar presença naquele monumental desfile. A comunidade de Nilópolis não se intimidou, e de certa forma, deixou a chuva participar do seu baile. O estrondoso temporal que caiu sobre o desfile funcionou com um combustível para os nilopolitanos. Os componentes cantaram a pleno pulmões o samba-enredo, imortalizado na voz rascante e potente do majestoso Neguinho da Beija-Flor.
Mesmo debaixo de um aguaceiro de respeito, o casal de mestre-sala e porta-bandeira, Élcio PV e Dóris, bailavam com muita classe, gabaritando as notas na apuração. A bateria dos Mestres Pelé e Bira garantiu o ritmo perfeito, sustentando a empolgação do início ao fim e provando que a Beija-Flor estava blindada de qualquer temporal.
Na quarta-feira de cinzas, a Beija-Flor conquistou o vice-campeonato do Grupo I (atrás apenas da Estação Primeira de Mangueira, com seu clássico “Caymmi mostra ao mundo o que a Bahia tem”). O épico desfile da Beija-Flor, com seus componentes com água até a canela, passou com toda a sua galhardia e coragem, envolvendo as arquibancadas, que, ensopadas, também sambavam como se o mundo fosse acabar naquele cortejo.
Qualquer outra escola que se deparassem com tal adversidade, talvez sucumbisse nas correntezas que tomaram conta da pista. Mas como a Beija-Flor é uma deusa, ela ressurgiu das águas para triunfar perante seu povo e transformou seu vice-campeonato, dado pelos jurados, em um título no panteão dos deuses do carnaval.
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