Pela primeira vez, a Estação Primeira de Mangueira vai ter um orixá como seu enredo. Será a potente Iansã. Assinado pelo carnavalesco Sidney França, a sinopse do enredo pretende retratar a força da Oyá, divindade dos ventos, das tempestades e dos raios, ressaltando sua coragem, independência e energia vital. O enredo também acaba fazendo uma conexão com a própria história da Verde Rosa, uma escola de samba que se forjou a partir da força do seu matriarcado.
A Mangueira foi a primeira escola do Grupo Especial a divulgar na mídia os sambas que concorrem para representar a escola no desfile do carnaval de 2027. São apenas dez sambas, algo peculiar para uma escola do tamanho da Mangueira. No cômputo geral, todos têm um bom nível musical e poético, embora algumas composições tenham problemas na letra, já que contradizem a sinopse do enredo.
Destaco três participantes que mais me chamaram a atenção. O primeiro é o samba da parceria de Lequinho, Júnior Fionda, Gabriel Machado, Orlando Ambrósio, Guilherme Sá e Paulinho Bandolim, que tem a participação da cantora Daniela Mercury na gravação. O samba abre com um refrão retumbante, que descreve melodicamente a força estrondosa e avassaladora de Iansã.
Oyá Tetê oyá Mangueira Yabá
Ê Mamãe! Traz de novo teu axé
Relampejou pra vitória... motumbalé.
A letra do samba emprega frases de efeito que ressaltam a ousadia e valentia de Iansã perante o mundo, relacionando-a com a força da mulher no combate ao machismo e ao feminicídio, que permeia a nossa sociedade.
Iyá mesan Orun...treme-terra
Desce o morro, sobe o rum...
É Guerra bate o oguê que o sangue tem dendê
Tá pra nascer quem manda nela.
Ela dança no ilê axé, dá caminho
No axexê faz do seu furacão,
Balé, dona do ajerê meu orí, tua
Coragem, liberdade obirín
Porque não existe macho que
Levante a mão pra mim
É que eu sou preta macumbeira e de Oyá
Sou ventania que ninguém pode afrontar
Colo de Ketu, solo do gueto, força de orixá.
O samba aposta numa Iansã intensa e destemida para desfilar na Sapucaí. Essas características fazem o samba chegar muito potente na disputa, pois a letra é fiel à Iansã da sinopse do enredo. Outro fator favorável é que a Mangueira vai encerrar os desfiles de 2027 e a composição tem a energia necessária para deixar a sua marca na passarela. A melodia também proporciona à bateria boas bossas afro-brasileiras. A letra, por ser forte e atrevida como a homenageada, pode facilitar o canto e a performance dos componentes mangueirenses na pista, transformando o desfile da Verde Rosa num caldeirão de dendê fervido.
O segundo samba que selecionei é o da parceria de Arlindinho, Pedro Terra, Tomaz Miranda, Herval Neto, Paulo César Feital e Igor Leal, vencedores do samba enredo da Mangueira de 2026. Sua estrutura musical diferenciada é, com certeza, seu grande trunfo, a começar pela estrutura inventiva e rica construção de versos do seu refrão principal. Os versos que abrem o samba são interrompidos sutilmente por um sub-refrão, logo em seguida o refrão principal retoma e se conclui.
Ah, epahey, ela é oyá, a bela oyá
Ah epahey, a minha mãe é Iansã
É quarta-feira tem macumba na Mangueira
Batuquei a noite inteira amanheci campeã
Dobra o adaró e o
alujá, no toque de guerra
A Mangueira vai passar.
Ah epahey, ela é Oyá, a bela Oyá ah,
Epahey, a minha mãe é Iansã
É quarta-feira tem macumba na Mangueira
Batuque a noite inteira amanheci campeã.
A obra tem uma rica melodia, que confere beleza à composição e, ao
mesmo tempo, sustenta harmonicamente o samba. Porém, a letra contradiz o perfil
da Iansã traçado na sinopse. A composição afirma que a guerreira Oyá luta
contra seus inimigos com a espada de Ogum, um dos seus amores. Já a sinopse deixa
claro que a Iansã não foi submissa a nenhuma das suas paixões. Nem a Ogum e nem
a Xangô. Ela se liberta e traça seu destino usando suas próprias armas.
Rainha dos insurgentes
Seu raio tem energia
A mãe de toda essa gente
A natureza bravia
Sagrada, imponente, potente no axé
A borboleta-mulher
Os belos versos acima completam a primeira estrofe do samba da parceria de Chacal do Sax, Verônica dos Tambores, Laura Romero, Rafael Capiberibe, Giovani e Ronie Machado. O samba que está sendo defendido na disputa pelos talentosos cantores Pixulé e Lissandra Oliveira. Não há dúvida que esta composição é o melhor samba da safra mangueirense, a começar pela melodia que é extremante rica e envolvente. Além disso, tem nos versos acima a melhor definição de quem é Oyá poeticamente. O único ponto frágil é justamente a letra, que a exemplo de outros sambas da disputa, também se equivoca ao definir a homenageada. Nas passagens do samba os autores colocam Iansã subordinada e protegida por Xangô. Na estrofe que antecede o grande refrão principal, diz que a Oya vai incendiar, ou seja, mas uma vez, relacionando o poder e o encantamento de Iansã ao fogo de Xangô. Apesar dos deslizes na letra, o samba da parceria de Chacal do Sax é o melhor dos dez sambas que estão em disputa mangueirense. Sua rica melodia e valentia são armas que fazem dele um perfeito representante da bravura e força de Iansã na avenida.
















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