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quinta-feira, 1 de outubro de 2026

Xica da Silva Salgueirense: Mito e contradição

quinta-feira, 01 de outubro de 2026

Neste artigo nosso colunista Professor Mariano aprofunda sua reflexão postada nas redes socias da Cadência da Bateria no Instagram e Facebook sobre o enredo do GRES Acadêmicos do Salgueiro para o carnaval 2027: “Laro Yê Xica da Silva – A História por trás da História”.

A Xica de 1963 (foto reprodução Acadêmicos do Salgueiro, disponível em: https://www.instagram.com/salgueirooriginal/)

por Professor Mariano    
A Xica da Silva empoderada, feminista e orixá que o Salgueiro vai levar para a passarela Darcy Ribeiro, fruto de uma nova releitura do enredo e da personagem do carnaval salgueirense de 1963, cria uma contradição histórica muito interessante para refletirmos sobre memória, história e tempo presente.

O Salgueiro trará para a avenida mais uma vez a Xica da Silva, mas com a diferença de estar imbuída do lugar de fala de uma personagem do tempo presente e do movimento feminista negro. A Vermelho e Branco tijucana confronta essa nova Xica da Silva à idealizada e contada em 1963, Xica esta eternizada na memória do carnaval brasileiro. Alias, o maior desfile de todos os tempos do Salgueiro, segundo historiografia das escolas de samba.

Não se trata de nenhuma crítica de juízo de valor ao enredo de 2027 do Salgueiro – necessário e importantíssimo se olharmos as vidas das mulheres pretas pobres contemporâneas, vítimas de uma epidemia de feminicídio no estranhíssimo tempo presente que vivemos.

Mas o que proponho é uma reflexão mais sofisticada, impulsionada por um questionamento: Será que o olhar do tempo presente pode conseguir derrubar um mito construído e solidificado ao longo do tempo?

Ao meu ver, a resposta é não. Afinal, mesmo que a Xica da Silva versão 2027 venha também a conquistar os mesmos louros de 1963, a Xica da Silva branqueada e rica permanecerá, sim, como uma verdade histórica. Não, obviamente, por seu branqueamento e riqueza, mas por ter marcado os corações de todos os foliões brasileiros naquele asfalto lendário da candelária.

O mito da Xica sessentista vai muito além de sua falta de verdade histórica social. Se explica muito mais pelos sentidos e emoções que ela provocou nos corações dos salgueirenses que fizeram seu cortejo em 1963.

Seu deslumbre estético e toda a história contada na pista construiu o imaginário do componente e torcedor salgueirense. Na época, a escola tinha apenas dez anos de existência. Aquele desfile não foi um mero carnaval: forjou o caráter de ser salgueirense e a academia do samba. O Acadêmicos fez uma revolução estética no carnaval, tanto que influenciou tudo que veio depois da chamada revolução salgueirense. A partir de 1963, os desfiles do carnaval carioca nunca mais foram os mesmos.

Portanto, existe uma contradição a partir da releitura da personagem Xica da Silva feita pelo Salgueiro para o desfile de 2027. Será que não seria melhor outra escola, que não fosse o Salgueiro, fazer essa oportuna releitura dessa personagem? Penso que seria melhor, pois assim se tiraria o esforço inútil de ser tentar apagar a Xica da Silva de 1963.

Por mais questionamentos que se façam hoje sobre aquela Xica, interpretada pela icônica Isabel Valença, Falar do desfile de 1963 é revelar a alma salgueirense e sua identidade como escola de samba.

Nem pior, nem melhor, apenas diferente.

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PROFESSOR MARIANO

Historiador e pesquisador do carnaval,
um dos fundadores do projeto Cadência da Bateria. 

Em suas colunas aborda o carnaval considerando os aspectos políticos e sociais e a importância dos desfiles para a construção da memória da cultura popular.

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