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sábado, 3 de outubro de 2026

Martinho da Vila não está acima da Unidos de Vila Isabel

sábado, 3 de outubro de 2026

O gosto agridoce da disputa de samba da escola ainda ecoa na opinião pública.
por Professor Mariano

Sou torcedor da Unidos de Vila Isabel e isso se deve muito à minha admiração por um dos nomes mais importantes não só do samba-enredo, mas também do movimento negro e da música popular brasileira. Estou falando, é claro, de Martinho da Vila.

A gloriosa história da Azul e Branco de Noel Rosa tem muito da participação genial e inovadora de Martinho José Ferreira, oriundo da cidade de Duas Barras, interior do Rio de Janeiro.

Martinho não é um cria da Vila, pois começou sua brilhante carreira de sambista na pequenina escola de samba Aprendizes da Boca do Mato, no bairro Lins de Vasconcelos. Foi lá que produziu a primeira obra-prima para o carnaval carioca: o samba-enredo Carlos Gomes, em 1957.

Mas, indiscutivelmente, foi na minha querida Vila que Martinho deu com sua malemolência e genialidade poética o ar de sua graça. Transformou a maneira de se compor samba fazendo da Vila Isabel uma escola de excelência no quesito samba-enredo. Quem não se lembra dos clássicos “Carnavais de Ilusões”, composto por ele em parceria com Gemeu; “Quatro Séculos de Modas e Costumes”, só dele, ou do revolucionário e antológico “Iaiá do Cais Dourado”, de Martinho com Rodolfo de Souza?

Fiz esse preâmbulo sobre a importância de Martinho na minha memória afetiva de torcedor da Vila e admirador do seu talento e história, para falar sobre a lamentável disputa de samba-enredo da Unidos de Vila Isabel para o carnaval 2027, cujo tema é “Torto Arado – sobre a terra há de viver sempre o mais forte”, baseado na obra homônima de Itamar Vieira Junior.

Martinho, Evandro Bocão e André Diniz botaram seu samba na disputa. Pelo peso da grife dos três excelentes compositores, o samba entrou na disputa com a certeza que seria o hino escolhido pela escola de Noel. No dia da grande final, entretanto, a escola resolveu juntar as obras da parceria de Martinho com a do grande compositor Paulo Cesar Feital – aliás, integram essa parceria vários compositores da ala da escola: Gustavinho Oliveira, Rafael Tinguinha (filho do puxador da escola Tinga) e Thales Nunes, também diretor da agremiação.

O que parecia ser uma decisão definitiva, não durou 24 horas: a escola cedeu às pressões de Martinho da Vila, que é presidente de Honra da agremiação, e desfez a junção. O samba de Martinho foi eleito o hino da escola.

Quem acompanha os meus comentários ao longo da minha carreira de comentarista e pesquisador de carnaval, sabe que eu sempre fui contra a junção de samba, pois considero um desrespeito ao compositor. Mas, como todos nós sabemos, hoje esse artifício é permitido nas escolas de samba. Portanto, não é algo fora da regra do jogo das disputas de samba.

A atitude de Martinho da Vila de não aceitar a decisão da escola de juntar sua composição com a da parceria de Feital, embora legítima, já que é também compositor da obra, é descabida, pois parece-me que faz uso da prerrogativa de presidente de honra para poder fazer valer a sua opinião.

Foi deselegante com a parceria escolhida e desrespeitosa com a Ala de Compositores da Unidos de Vila Isabel, que é muito mais antiga que a entrada do senhor José Ferreira na escola.

A linda história da Ala de Compositores começa com a criação da escola, em 1946, tendo como o grande expoente musical dessa fase de origem, o inesquecível Paulo Brazão. Primeiro presidente da escola, primeiro compositor e diretor de harmonia da Vila.

Brazão foi o responsável direto pela composição de todos os sambas da Vila até a chegada de Martinho, no final da década de 1960. Sendo assim, a história musical da Unidos de Vila Isabel, transcende a presença de Martinho na agremiação.

Ao longo do tempo grandes sambas transformaram a Vila em uma das melhores discografias do nosso carnaval. É claro que Martinho tem sua participação gloriosa. Contudo, outros compositores fizeram da harmonia e música da escola do Morro dos Macacos e Pau da Bandeira, uma casa de excelência. Podemos citar alguns grandes compositores da Vila, além de Brazão e Martinho: Tião Graúna, Rodolfo de Souza, Luis Carlos da Vila, Gemeu, Leonel, Jorge King, André Diniz e Evandro Bocão. Sem falar dos bambas que brilharam em outras escolas, mas que começaram e aprenderam a fazer samba na Vila, como Geraldo Babão (Salgueiro) e Beto Sem Braço (Império Serrano).

Um conhecido comentarista de carnaval de um grande jornal de circulação no Rio de Janeiro falou em um podcast que estava chocado com aquilo que ele classificou como ataque da opinião pública a Martinho da Vila. E defendeu a atitude do compositor de pressionar a escola ao ameaçar sair da disputa, caso o seu samba não fosse escolhido.

Eu penso diferente. Considero um absurdo a Vila perder vários talentosos jovens compositores por causa de uma atitude presunçosa de alguém, que sim, faz parte de forma brilhante da história musical da nossa Vila, mas não está acima dela.

A Vila não é do senhor José Ferreira, e sim, da comunidade dos Macacos e adjacências e de todos os baluartes que fizeram sua história: desde Noel, passando por Seu China e todo seus segmentos e torcedores.

Mas, como o próprio Martinho já cantou, ninguém conhece ninguém:

“Ninguém atravessa idade somente em passo certo
Não há deserto sem água e nem coração sempre aberto”.

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PROFESSOR MARIANO

Historiador e pesquisador do carnaval,
um dos fundadores do projeto Cadência da Bateria. 

Em suas colunas aborda o carnaval considerando os aspectos políticos e sociais e a importância dos desfiles para a construção da memória da cultura popular.

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