segunda-feira, 27 de abril de 2026
Após hiato de 11 anos, São Gonçalo celebra a retomada de seus desfiles oficiais
Por RedaçãoApós 11 anos de silêncio na avenida, os tamborins voltaram a ecoar em São Gonçalo. O último desfile oficial da cidade havia ocorrido em 2015, no tradicional reduto do bairro Paraíso. Desta vez, a passarela do samba foi montada no Centro, na região do Rodo — também conhecida como Praça da Marisa —, local onde a Porto da Pedra já realiza seus ensaios de rua.
A iniciativa da retomada partiu da LigaSG, em parceria com a Prefeitura e a Secretaria Municipal de Cultura. Ao todo, quatorze escolas disputaram o título em grupo único nos dias 21 e 22 de abril.
O Pódio da Retomada
A Unidos do Salgueiro sagrou-se a grande campeã deste retorno histórico. A Acadêmicos do Universo, que detinha o título de 2015, ficou com o vice-campeonato, enquanto a Mocidade Independente do Boaçu, detentora de um tetracampeonato, garantiu o terceiro lugar.
Primeira Noite: Diversidade e Reencontros
A abertura dos desfiles, no feriado de Tiradentes (21), coube à Acadêmicos do Porto Novo. Com o enredo "O Mundo Encantado dos Autistas", a agremiação promoveu um manifesto contra o preconceito. A clareza das fantasias e a relevância do tema garantiram à escola o 5º lugar.
Na sequência, a Mocidade Unidos do Marimbondo celebrou sua própria trajetória com o enredo "Acendam as Luzes da Avenida: o Sonho Virou Realidade! A Marimbondo Voltou Feliz da Vida!". O desfile relembrou as origens da escola como bloco no Paraíso e resgatou enredos clássicos. O carro de som, liderado pelo intérprete Alexandre Simpatia, foi um dos pontos altos.Alexandre Simpatia e o carro de som da Mocidade Unidos do Marimbondo, um dos destaques do Carnaval da Retomada (foto: Luiz Eugenio / Na Cadência da Bateria)
A estreante São Gonçalo do Amarante trouxe o tema "Quem Canta e Dança Seus Males Espanta!", explorando a ligação do santo padroeiro com a dança. O desfile foi um passeio rítmico pelo Brasil, com estética de fácil leitura.
Participação Especial e Esvaziamento Convidada para abrilhantar a festa, a Unidos do Viradouro, atual campeã do Carnaval carioca, atraiu um grande público. No entanto, houve um esvaziamento notável da avenida após a passagem da vermelha e branca do Barreto. Já a Porto da Pedra, embora convidada, não participou, mas foi homenageada pela Viradouro, que entoou o clássico samba de 1996 da agremiação gonçalense em seu "esquenta".
A passarela gonçalense recebeu um excelente público na primeira noite de desfiles, mas parte dele saiu após a apresentação da Unidos do Viradouro (foto: Luiz Eugenio / Na Cadência da Bateria)
Dando continuidade, a Acadêmicos do Universo provou por que é uma das potências locais. Com o enredo "Água! Fonte da Vida, com Sede da Folia, a Universo Vem se Banhar nas Águas da Alegria", a escola uniu conscientização ambiental e religiosidade, conquistando o vice-campeonato.A última campeã do carnaval gonçalense em 2015, a Acadêmicos do Universo se consolida como uma das grandes escolas da cidade. (foto: Luiz Eugenio / Na Cadência da Bateria).
A Unidos do Barro Vermelho prestou tributo à educadora Marlene Salgado de Oliveira. O enredo, uma reedição do Carnaval de 2017 (quando a escola desfilava em Niterói), não foi suficiente para manter a agremiação no topo: a 11ª colocação levará a escola ao Grupo de Acesso em 2027.
Encerrando a primeira noite, a Mocidade Independente do Boaçu apresentou o tema "Baía de Todos os Santos". Com foco na cultura soteropolitana e no Recôncavo Baiano, a escola empatou em pontuação com a Universo, mas ficou com o bronze pelos critérios de desempate.
Segunda Noite: Do Folclore à Conscientização Hídrica
A segunda noite começou sob a liderança do baluarte Hugo Camburão e sua Pingo D’Água, que trouxe o lúdico enredo "Contos e Histórias Infantis que Vovó Contava". Apesar do desfile afetivo, a 10ª colocação resultou no descenso para o Acesso.
Outra estreante, a Unidos de Neves, explorou o imaginário infantil. O destaque foi a bateria de Mestre Roberto Migans, que se apresentou caracterizada como banda marcial, garantindo o 8º lugar.
Segunda escola do segundo dia de desfiles, a Unidos de Neves apresentou um imponente carro alegórico (foto: Luiz Eugenio / Na Cadência da Bateria).
A Império do Porto da Ponte, estreante cercada de expectativas, assegurou a 6º posição e uma vaga no Grupo Especial de 2027, com o enredo ecológico "A Saga de Gaia", a azul e branco.Destaque para a Comissão de Frente (foto: Luiz Eugenio / Na Cadência da Bateria).
Após interrupção para a apresentação da convidada Imperatriz Leopoldinense — que conta com Pitty de Menezes, presidente da LigaSG, como intérprete —, a disputa continuou com a Alegria de Guaxindiba. A escola homenageou Roberto Bolaños (Chaves), terminando em 9º lugar.
A Recanto do Engenho trouxe a religiosidade da Jurema Sagrada e da Umbanda com o enredo "Zé por Zé", focado na figura de Zé Pilintra, mas acabou na 13ª posição.
O Título do Salgueiro A penúltima a desfilar foi a Unidos do Salgueiro, que apresentou o enredo "Do Imunana ao Laranjal, o Salgueiro Vem Alegrar Meu Carnaval". Desenvolvido pelo carnavalesco Betto Reis, o tema transformou o sistema de abastecimento de água da região em um espetáculo visual de alto acabamento. A harmonia e a plástica impecáveis garantiram o título de campeã da retomada.Os jacarés do Salgueiro, uma das atrações do Carnaval da Retomada (foto: Luiz Eugenio / Na Cadência da Bateria).
O encerramento ficou por conta da Caprichosos de São Gonçalo, que homenageou Uberlan Jorge de Oliveira, ex-presidente da Porto da Pedra falecido em 2025. Apesar da carga emocional, falhas em itens obrigatórios deixaram a escola na última colocação.
Como fica a composição dos grupos para 2027:
Análise: Sucesso com Pontos de Atenção
O saldo da retomada é amplamente positivo. A organização ofereceu infraestrutura adequada, guia para a imprensa, um corpo de jurados qualificado e até ponto de hidratação. O início foi, inclusive, mais robusto que o processo de revitalização de Niterói em 2006.
Contudo, para o Carnaval gonçalense evoluir, alguns ajustes são necessários:
Identidade: A dependência de alegorias emprestadas e instrumentos de Niterói foi válida para o recomeço, mas o fomento de artistas locais é imprescindível.
Fluxo do Evento: A inserção de escolas convidadas no meio da disputa prejudica o ritmo do espetáculo e causa a dispersão do público antes das últimas concorrentes.
Apoio: Todo o processo de reconstrução dos desfiles demandará muito apoio do poder público, através das subvenções e parcerias institucionais.















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