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quinta-feira, 21 de maio de 2026

União da Ilha descobre tesouro da cultura negra como enredo para o carnaval 2027

quinta-feira, 21 de maio de 2026

União da Ilha descobre tesouro da cultura negra como enredo para o carnaval 2027
por Professor Mariano

A nossa querida União da Ilha do Governador, que nos abrilhantou com vários sambas espetaculares no percurso de sua história, escolheu como enredo para seu carnaval de 2027 “Um Amor de Carnaval – Getúlio Marinho”.

Getúlio Marinho é mais um desses personagens da cultura afro-brasileira que estavam escondidos e esquecidos nas sombras dos arquivos históricos, inclusive pelo próprio samba. A União da Ilha, antes tarde do que nunca, faz essa reparação histórica e marca um gol de placa ao levar para a avenida, em 2027, um enredo tão singular, relevante e cheio de amor ao samba e sua negritude.

Amor foi – a exemplo de Heitor dos Prazeres, homenageado pela minha Unidos de Vila Isabel no carnaval deste ano – um multiartista negro que, mesmo diante de um contexto de racismo e marginalização, brilhou como dançarino, percussionista e cantor. Um verdadeiro tesouro da cultura negra!

Marinho, ao lado de Elói Antero Dias (o Mano Elói), realizou as primeiras gravações de pontos de macumba afro-brasileiros em disco no Brasil, em 1930. Juntos, eles foram verdadeiros guardiões e porta-vozes da sabedoria ancestral africana.

Já na metade da década de 1920, Amor brilhava como mestre-sala no rancho Quem Fala de Nós Tem Paixão. Sua dança precursora e inovadora influenciou todos os mestres-salas que vieram depois, tanto nos ranchos como nas escolas de samba.

Nascido em Salvador no dia da Proclamação da República, em 15 de novembro de 1889, o sambista chegou ao Rio de Janeiro ainda criança, poucos anos depois do fim da escravidão em nosso país. Convivendo com africanos ex-escravizados praticantes das religiões de matrizes africanas, aprendeu a sonoridade original dos pontos de candomblé ancestrais que levou, mais tarde, para seus discos gravados com Mano Elói.

A origem do apelido Amor foi dada por uma prima de Salvador, ainda bebê. Marinho participou como artífice do intenso movimento de resistência e afirmação da cultura negra afro-brasileira no Rio de Janeiro nas primeiras décadas do século XX.

Ainda jovem, conviveu e aprendeu ensinamentos da cultura preta com o mestre Hilário Jovino, no inovador rancho Dois de Ouro. Mais tarde, junto com Marinho Jumbeba, neto de Tia Ciata, e o lendário Bicho Novo do Estácio, tornou-se um dos maiores nomes da dança de mestre-sala da história do carnaval.

Amor foi pioneiro nas artes do seu tempo. Participou, por exemplo, da fundação e organização da União das Escolas de Samba em 1934, tendo atuado como secretário na diretoria que abriu os trabalhos na entidade. Em 1940, teve a honra de ser eleito Cidadão Samba – título que era conquistado por meio de votação dos próprios sambistas.

No seu clássico livro “Samba de Sambar do Estácio”, o pesquisador Humberto Franceschi coloca Amor ao lado de Ismael Silva, Bide e Heitor dos Prazeres como parte de uma nata de músicos virtuosos que mudaram a história da música popular brasileira e do carnaval.

Getúlio Marinho partiu em 1964 – outro ano emblemático na história do Brasil –, sem ver o início do fatídico Regime Militar. Seu falecimento, em 31 de janeiro daquele ano, aos 74 anos, passou despercebido pela imprensa. Ao escolher Getúlio Marinho, o Amor, como seu enredo, a Tricolor Insulana, muito mais que contar uma história para seu carnaval, resgatará um personagem importantíssimo para entendermos a história da nossa cultura popular afro-brasileira nos seus primórdios. Viva Getúlio Marinho, com todo Amor!

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PROFESSOR MARIANO

Historiador e pesquisador do carnaval,
um dos fundadores do projeto Cadência da Bateria. 

Em suas colunas aborda o carnaval considerando os aspectos políticos e sociais e a importância dos desfiles para a construção da memória da cultura popular.

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